Uso de plástico, o desafio do século
Atlas do Plástico, lançado pela organização Heinrich Böll Stiftung

Os ares do novo ano chegam junto com uma boa notícia para os ambientalistas e todas as pessoas que se preocupam com o impacto à nossa saúde causado pelo excesso de produção e consumo. Na França, desde ontem, uma lei proíbe embalagens de plástico para algumas frutas e vegetais frescos. A proibição vai atingir supermercados e pequenos comércios. Nunca é demais lembrar que os supermercados cobram atualmente pelas sacolas plásticas, que antes eram gratuitas, mas não se negam a expor as embalagens.

O presidente Emmanuel Macron chamou a nova lei de “uma verdadeira revolução”. E anunciou, em reportagem publicada no jornal britânico “The Guardian” que a França estava, a partir de então,  assumindo a liderança global para eliminar gradualmente todos os plásticos descartáveis ​​até 2040.

As embalagens acima de 1,5kg estarão isentas, assim como frutas picadas ou processadas.  Tomates cereja ou frutas macias, como framboesas e mirtilos, terão mais tempo para permitir que os produtores encontrem alternativas ao plástico. Com cerca de 37% das frutas e vegetais vendidos embalados em embalagens de plástico na França em 2021, o governo acredita que a proibição cortará mais de 1 bilhão de itens de embalagens de plástico descartáveis ​​por ano. 

A julgar pelo resultado de uma pesquisa feita no país em 2019, a opinião pública está aplaudindo a iniciativa de Macron. O estudo mostrou que 85% das pessoas eram a favor da proibição de embalagens e produtos plásticos de uso único. Além disso, mais de dois milhões de franceses assinaram uma petição da ONG WWF pedindo aos governos mundiais que parem com a crise de poluição dos plásticos.

A causa é mais do que nobre e urgente, mas não será nada fácil mudar essa cultura. O plástico faz mal à saúde humana, já que para que ele tenha características que o tornem útil, uma variedade de produtos químicos é adicionada em sua produção. E também faz mal ao meio ambiente: resíduos de plástico e microplástico flutuando nos oceanos são uma questão muito discutida, embora poucos se deem conta de que a poluição plástica do solo pode ser de quatro a 23 vezes maior do que nos mares.

“O que torna o plástico útil é exatamente o que o torna prejudicial: ele persiste”, disse Barbara UnmüBig, presidente da Fundação Heinrich Böll, na introdução do “Atlas do plástico”, que a organização lançou no ano passado com “fatos e números sobre o mundo dos polímeros sintéticos”. Os dados que acabo de descrever foram reproduzidos do Atlas.

O estudo da Heinrich Böll, feito em parceria com a ONG Break Free From Plastics, conta o caminho que percorremos para chegar ao estarrecedor volume de 600 milhões de toneladas por ano, estimativa para 2025. Tudo começou depois da II Guerra Mundial, época que o historiador Eric Hobsbawn chama de Era de Ouro (1947 a 1973) em seu livro “Era dos Extremos” (Ed. Companhia das Letras). Hobsbawn chama de “espantoso período”, que assinalou o fim dos sete ou oito milênios de história humana iniciada com a revolução da agricultura na Idade da Pedra. Uma era em que a esmagadora maioria da raça humana vivia “plantando alimentos e pastoreando rebanhos”.

Corroborando com a análise de Hobsbawn, o Atlas do Plástico diz que, entre 1950 e 2017, foram produzidos cerca de 9,2 bilhões de toneladas de plástico, o que representa mais de uma tonelada por cada pessoa que vive hoje no planeta. O momento da grande virada a favor do plástico foi em 1978, quando a Coca-Cola substituiu suas garrafas de vidro por pets. A partir daí, foi uma febre. O leite deixou de ser vendido na porta, em vidro. Os remédios passaram a ser embalados em celofane.

Na década de 50, as pessoas ainda tinham algum cuidado em reutilizar o plástico. Mas, com o impulsionamento da economia pela necessidade de consumir mais produtos, a “semente da cultura descartável” foi plantada.

“O plástico é, ao mesmo tempo, resultado da globalização e um combustível que a alimenta. Compras online estão causando a acumulação de montes ainda maiores de lixo”, diz o relatório. No mar, e na terra.

Um capítulo do Atlas é dedicado justamente à indústria de alimentos, tema que afetou Emmanuel Macron a proibir o uso de plásticos nas embalagens. Plástico filme e espumas são usados para proteger os alimentos de danos, mantê-los frescos e torná-los atraentes.

 A questão é que os supermercados gostam de oferecer os mesmos produtos o ano todo e a embalagem garante que eles permaneçam frescos e possam ser transportados sem grandes danos. Além disso, o dinamismo da vida atual faz com que as pessoas busquem facilidades, o que inclui comida pronta, embalada. Aqui no Brasil, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Plástico (Abiplast), depois da construção civil (22,4%), o setor que mas consome transformados de plástico é o de alimentos (20,3%).

No mundo, segundo a Grand View Research, o tipo mais comum de embalagem para a indústria de alimentos é o plástico. E a maior parte do lixo plástico nos oceanos é proveniente de embalagens de alimentos descartadas.

Ainda por cima, por conta de não se ter muita confiança na pureza da água, nem mesmo com filtro, aqui no Brasil muita gente bebe água de garrafa… plástica. O problema disso é que os fabricantes (da água engarrafada) precisam listar o conteúdo mineral em detalhe, mas o microplástico, presente em altas doses, não aparece como ingrediente. Ou seja: estamos consumindo microplástico. Ainda não se sabe se faz mal, ou o quanto faz mal.

“O debate está apenas começando a respeito dos microplásticos no solo, na pecuária e nos alimentos”, diz o relatório.

A melhor solução? Não produzir tanto plástico. No entanto, sem plástico nenhum dos carros de hoje estaria nas estradas. Os aviões não estariam no ar. Olhe em volta que você vai se dar conta de outras tantas coisas que não teriam sido fabricadas, produzidas, sem o plástico. Na agricultura, ele é usado inclusive para cobrir algumas plantações e evitar, assim, que elas sejam danificadas por animais.  

É legítimo perguntar: como sair desse imbróglio? Há algumas soluções, assim mesmo, no plural. E é claro que reduzir a produção e o consumo de plástico encabeça a lista. Mas o Atlas do Plástico traz também o exemplo de uma pequena cidade italiana, chamada Capannori, que tem apenas cerca de 40 mil habitantes, mas que conseguiu criar uma política publica de Lixo Zero desde 2007. Termino este texto detalhando a iniciativa de Capannori. Quem sabe nos inspira um pouco?

“Entre as ações estão incluídas a minuciosa separação de diferentes tipos de resíduos, incentivos econômicos para reduzir a produção de resíduos e um esforço coletivo para reduzir o que não é considerado lixo não reciclável. Há lojas sem embalagens, fontes públicas de água, um centro para reunir doações de roupas com oficina de conserto. Fraldas laváveis são subsidiadas, e realizam-se desafios de Lixo Zero para engajar os cidadãos.”

Feliz Novo Ano!

Amelia Gonzalez é jornalista, foi editora por nove anos do caderno Razão Social do jornal ‘O Globo’ e colunista do Portal G1, também da Globo. Atualmente mantém o Blog Ser Sustentável, onde escreve sobre desenvolvimento sustentável e colabora na Revista Colaborativa Pluriverso e aqui, na revista Entrenós, uma parceria da Casa Monte Alegre e a Pluriverso.

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