Os bastidores de uma história da vida marinha contada aos quatro cantos
Boto na Ilha Grande

Há uma semana, a capa do jornal “O Globo” de domingo estampou uma foto onde um grupo de botos saltava da água, no mar de Ilha Grande, formando um mosaico de rara beleza. Assinada pelo fotógrafo Custódio Coimbra, aquele flagrante exigiu uma produção, como todos devem imaginar. Fui além da imaginação. Trabalhei com Custódio no mesmo jornal, anos atrás, e decidi procurá-lo para ouvir a história desses bastidores que trago aqui para vocês.

Botos na Ilha Grande. Fotos de Custodio Coimbra

“Os botos que avistamos, depois de três dias, eram os botos cinzas. São mais arredios e fogem na aproximação dos barcos. A técnica é ir a uma distância, com o motor desligado, seguindo o caminho deles. De tempos em tempos eles sobem para respirar, e é neste momento que se tenta fazer o foco. Quando eles afundam, fica um rastro na água, que serve como referência. Os pulos (como da foto) são raros, mas acontecem. Eu dei a sorte de ficar acompanhando mais de 200 deles. Em alguns momentos, fiquei cercado pelos botos, e a sensação é incrível. O som da respiração deles, em meio ao silêncio, é emocionante. Mas vi muitos pulos sem estar com a máquina preparada. É bem difícil porque, além da rapidez necessária para flagrar aquele instante, tem o balanço do barco dificultando o enquadramento”, contou-me.

Na reportagem, assinada por Ana Lucia Azevedo, o leitor é informado de que, por conta das péssimas condições de sujeira das águas, já não chegam a 30 os botos da Baía de Guanabara. Já a Baía de Ilha Grande, com superfície duas vezes maior do que a da Guanabara, é ainda um lugar que a espécie pode ter alguma tranquilidade para viver, procriar e se alimentar.

A conversa com Custódio Coimbra, no entanto, levou-me a outro personagem dos bastidores da reportagem. O ambientalista Jose Lailson é um dos fundadores do Laboratório de Mamíferos Aquáticos e Bioindicadores (Maqua), da Uerj, e foi quem levou a equipe do Globo até os botos. Conversar com José Lailson foi fazer uma espécie de viagem no tempo, já que o Maqua foi criado em 1992, ano da Conferência do Meio Ambiente que se realizou aqui no Rio e ficou sendo conhecida como Rio-92.

De lá para cá, os botos sofreram mais? Sim, com certeza, por causa da industrialização que levou sujeira às águas que são seu habitat. Mas, e então? Como fica a luta dos ambientalistas?

“Existe uma perda efetiva de qualidade ambiental que não é reposta com as medidas de compensação que a legislação exige das empresas. O que se precisa é garantir que fique mais difícil que os danos ambientais aconteçam novamente. Hoje temos uma estrutura que faz com que sejamos consultados para qualquer empreendimento que vá acontecer na Baía de Guanabara. E nossas colocações são incontestáveis. Conseguimos evitar muitos impactos.”, disse ele.

Os trinta anos do Maqua foram de muito trabalho, estudo, pesquisa e, sobretudo, de relação com os pescadores, com as pessoas das comunidades cujo saber é respeitado pelos cientistas.

“O Maqua é uma construção coletiva, um ser vivo. Nunca nos fechamos na caixinha, nunca nos empoleiramos, temos um respeito muito grande pelos saberes tradicionais. E quando eu falo da Baía, eu falo com experiência, porque tenho também horas de mar. Não ficamos trancados em escritórios ou salas de aula”, disse José Lailson.

Estamos em ano de efemérides ambientais. Aniversário de 30 anos da Rio-92 e comemoração do aniversário de meio século da primeira Conferência Mundial do Meio Ambiente, à época chamada de “ambiente humano”. Com tudo isso, ainda é difícil tornar o tema popular. A falta de políticas públicas que sejam capazes de coibir, por exemplo, o garimpo ilegal e destruidor na Amazônia, é resultado direto desse não envolvimento aqui no Brasil. Por quê?

“A questão da consciência das pessoas com relação ao meio ambiente é difícil. Evoluímos para melhor nesses últimos trinta anos sim, sem dúvida, mas não na intensidade necessária. Isso tudo tem relação com a falta de informação de qualidade. Aqui na região metropolitana do Rio de Janeiro, por exemplo, precisamos cuidar muito de como passar essa informação. Há muitas pessoas que vivem em situação de muita privação. Você dizer para alguém que vive com o esgoto na porta de casa, que ainda vai ter mais desgraça, não vai resolver”, disse José Lailson.

Por isso, o Maqua decidiu inverter um pouco o discurso. E isso quer dizer: fazer com que as pessoas conheçam os oceanos, identifiquem os personagens que habitam o mundo submarino, para criar empatia e, aí sim, gerar o desejo de que tais criaturas sejam conservadas.

“Antigamente nós falávamos muito sobre a morte dos botos, sobre o risco que eles estão correndo com tanta poluição em seu habitat natural. Hoje falamos mais sobre a resiliência deles e reforçamos que nós precisamos ajudá-los nessa briga. É para criar uma parceria. Outra coisa que fizemos foi dar nome de pessoas humanas a eles, isto tem um efeito maravilhoso. Os humanos precisam muito dessa identificação. Nós demos o nome de Acerola a um botinho, certa vez. E quando Acerola morreu, teve até inquérito da Policia para apurar o motivo”, conta José Lailson.

O site do Maqua tem muitas histórias. E pode servir como auxílio a professores que quiserem embarcar nessa energia. Estimular o positivo, sem esconder a realidade, sempre será um bom caminho para passar adiante informações de qualidade. Além disso, os “meninos do Maqua”, que hoje já têm cinco décadas de vida, trilharam uma vida acadêmica que lhes dá, acima de tudo, credibilidade.

É uma história feliz.

Amelia Gonzalez é jornalista, foi editora por nove anos do caderno Razão Social do jornal ‘O Globo’ e colunista do Portal G1, também da Globo. Atualmente mantém o Blog Ser Sustentável, onde escreve sobre desenvolvimento sustentável e colabora na Revista Colaborativa Pluriverso e aqui, na revista Entrenós, uma parceria da Casa Monte Alegre e a Pluriverso.

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