O tempo da delicadeza
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A manhã transcorria pertencida daquela falsa normalidade que nos deixa com a alma aquietada.

Não tinha caminhado nem cinco minutos quando ouvi um latido forte de cachorro angustiado, nervoso. Sou completamente afetada por cães. Sinto a angústia deles na voz, e isto já me tirou da falsa normalidade.

“A manhã começou tensa”, pensei.

Na sequência, vejo o rapaz sair com o carrinho de sua bebê, que chamava pela mãe. Pouco atrás, a mãe, de sandálias de dedo, uma jovem bem bonita que vi grávida, equilibrava nas duas mãos suas duas vira-latas. Uma delas, a de latido angustiado.

Seguiram em frente. Estamos acostumados a nos desejar bom dia, mas achei que não seria bom, naquele momento. Quando a tensão ronda a gente, fica chato vir alguém com ares de mantra.

Bom dia? Quais são suas fontes?

Fui arrastando Beto, meu cão, que queria arrumar treta com a vira angustiada. Nem pensar, amigo. Não é hora disso.

Na esquina seguinte, alguém falava ao telefone celular. Àquela hora da manhã, já num tom de voz acima, explicava-se pelo atraso.

Eram 7h30m!

Fiquei nostálgica. Como era bom o tempo em que a gente saía pelas ruas sem ser monitorado, vigiado, seguido, por um dispositivo. Se chegasse atrasado, a situação se resolvia no instante da chegada.

Naquele tempo a gente ouvia, falava, ouvia. E fazia hiato entre um e outro momento.

Preferi o caminho da subida, busquei ouvir o som dos pássaros, focar meu olhar nas árvores que formam um lindo rizoma lá no alto da pedra. Não há serenidade também na natureza. É preciso lidar com o tempo da tensão, intercalar com a calmaria.

              “Os morros se andorinham longemente…

                Eu me horizonto”

                                         Manoel de Barros

Busco fazer esta conexão com a minha respiração. O ar entra pelo nariz, enche a barriga e sai pela boca. Uma, duas, três vezes… e o corpo vai se enchendo de uma certa tranquilidade.

Passo por um vizinho que procurou bater papo, e aceito. Jogar uma conversa fora pode ser bom para desestressar. Mas ele me lembrou da viagem de Nancy Pelosi – a segunda no comando da nação mais rica do planeta – a Taiwan, pura provocação à China. Como se nos Estados Unidos tudo estivesse muito bem resolvido, ah, então vamos cuidar de ampliar nossa capacidade de ter dispositivos eletrônicos (para quem não sabe, pesquise, foi esta a razão da viagem). Mais dinheiro gasto com armas do que com educação! Mais dinheiro com tecnologia do que para dar bem-estar à população!

Pronto, o efeito esponja de novo. A tal lucidez me perseguindo, como se eu não tivesse um momento que fosse próprio meu, a conversar com plantas, pedras, pássaros.

            “A voz de um passarinho me recita”

                                             Manoel de Barros

O mundo pertencido a líderes que só enxergam uma forma de vida: aquela que possui dinheiro, coisas, tecnologia. Mais, mais e mais.

O valor da vida fica em outro lugar, e nem consigo imaginar, na cabeça de um líder que investe dinheiro e paga equipe, drones, armas, para matar um único homem, chamado de “o terrorista mais procurado”. E depois vai à televisão para se vangloriar disso… não consigo imaginar o valor da vida para uma pessoa dessas.

A conversa com o vizinho, como vocês podem imaginar, não prosperou muito. Segui meu caminho, buscando na pedra, nas árvores, no canto de cada passarinho, meu desejo de me acalmar.

Na volta para casa ouvi um filho pequeno brigando com a mãe, que tentava fazê-lo abandonar a televisão para ir à escola. Ele gritava, ela gritava.

Tantas vezes vivi a mesma cena! Deu vontade de dizer a ela: “Educar é a arte do impossível, querida. Mas no fim, dá certo”.

Meu filho hoje tem 40 anos. E é um ser. Um ser sensível. Não sei se ajudei ou atrapalhei. Mas dei-lhe a vida. E ele respeita cada momento desse regalo.

Voltei para casa e senti uma tremenda vontade de ver o mar. Consultei minha agenda, o compromisso de entregar um texto, calculei o tempo e decidi ir.

Por sorte o ônibus chegou logo. Por sorte a maré estava baixa. E pude andar rápido na areia dura, molhando os pés no mar. Delícia.

Teve que ser rápido, mas como foi bom.

Na volta, peguei um táxi para agilizar.

Abri a janela, deixei o ar invernal refrescar meu rosto.

Foi quando percebi, num som baixinho, o Claudio Nucci cantando “Quem tem a viola”. Tão baixinho que precisei me aproximar um pouco do rádio para ouvir. E a música me levou embora, final dos anos 70, esperança no ar, os tempos de chumbo, da ditadura torturando amigos, tinha que acabar.

E me peguei dedilhando ao som do “Tem tom de roupa quando seca no varal”…

Até que percebi o movimento do motorista. Devagar, como se não quisesse perturbar meu enlevo, ele tocou no rádio e aumentou um grauzinho, coisa de nada.

Ficou mais confortável para eu ouvir.

Um gesto delicado, só isso. E, no meio daquele turbilhão que fora o início da manhã, aquele gesto me emocionou.

Estava mesmo precisando carregar minha bateria com a delicadeza que aquele desconhecido me ofereceu.

Amelia Gonzalez é jornalista, foi editora por nove anos do caderno Razão Social do jornal ‘O Globo’ e colunista do Portal G1, também da Globo. Atualmente mantém o Blog Ser Sustentável, onde escreve sobre desenvolvimento sustentável e colabora na Revista Colaborativa Pluriverso e aqui, na revista Entrenós, uma parceria da Casa Monte Alegre e a Pluriverso.

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