Ô abre alas, que eu quero passar!
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Domingo de carnaval, 9h30m. Um pequeno aglomerado de pessoas esperava à porta da escola municipal para o momento mágico. Lá dentro, a banda do “Gigantes da Lira”, bloco infantil, dava seus primeiros acordes, emitindo os sons de “2001 – Odisseia no Espaço”, emprestando à ocasião ares ainda mais fantásticos. Ao meu lado, alguém comentou:

“Para mim, o ano só começa depois disso”.

Concordei. Se bem que, na verdade, para mim o ano começa mesmo é na sexta-feira de cinzas, já que há muito não respeitamos o limite da quarta-feira para o fim da folia.  O Rio de Janeiro, neste quesito, importou de Salvador esse carnaval estendido.

Ruim para uns, que são da turma do “vinho, biblioteca, paz e amor” e detestam ver a cidade entregue à bagunça. Sim, é bagunça mesmo, não tem como chamar de outra coisa. E por mais que a administração pública tente dar um jeito, pouco se vê como bons resultados.

Xixi na rua, por exemplo. Quem mora no epicentro da folia já sabe que vai ter que lidar com esse desconforto depois que o bloco passa. Por mais que tenha banheiros públicos espalhados, a galera gosta mesmo é de transigir. Já houve um ensaio de aplicar multa aos mal educados, mas não foi à frente. Até porque, quem consegue fiscalizar um troço desses?

Para tantos outros, porém, o Carnaval é aguardado com ansiedade. Será tempo de esquecer as tristezas e se lançar no mundo da fantasia. Ou mesmo para encontrar os amigos e beber uma cerveja. Ou, simplesmente, tempo para transgredir, tomar as ruas e andar com uma sensação de liberdade (mesmo que vã).

Mas uma grande massa de trabalhadores e trabalhadoras esperam esses dias para fazer uma renda extra, vendendo de um tudo. Aqui na rua, o primeiro bloco que se arma e se organiza é dos vendedores. De saiotes de tule a máscaras, purpurina e todas as bugingangas que servem para colorir e enfeitar são expostos logo cedo, antes de os foliões se animarem. Formam um mosaico interessante, e eu fico me perguntando se tudo é vendido mesmo, se o lucro vale a pena pelo trabalho que deve dar.

Fato é que a magia se repete, e sempre dá aquele frisson na hora dos primeiros batuques. Impossível ficar parado, sem ensaiar uns passos que seja. Está na alma, no sangue, sei lá.

No bairro das Laranjeiras há muitos blocos. E o “Gigantes da Lira” é infantil, tem aquele jeito de bloco família, sai na manhã do domingo anterior ao carnaval. É tradição.  Os bonecos gigantes vão colorindo as ruas, pessoas em perna de pau, com uma habilidade que, para mim, que nem consigo equilíbrio para andar sobre duas rodas, parece mesmo coisa de outro mundo.

O cortejo segue, ora devagar, ora aos pulos. E, seguindo a tradição, diminui o ritmo em frente à janela que abrigava dona Elizabeth Saleiro, nonagenária que até 2014, quando faleceu, esperava os foliões toda arrumadinha, de brinco e batom. Acenava para eles, mandava beijos. Em troca de tanta delicadeza, a banda e ensaiava um ‘Carinhoso’, hit de 1917 composto por Pixinguinha.

Hoje, dona Elizabeth é representada por uma boneca feita à sua imagem e semelhança. Ela também acena, manda beijos, ouve o ‘Carinhoso’. E o cortejo retoma o ritmo, ora lento ora ligeiro, bem ao gosto de quem gosta da festa.

Entre uns, outros e outros, reservo-me o espaço entre aqueles que não deixam de gostar de Carnaval. Mas já gostei mais. Não me sinto nem um pouco convidada a participar desses mega blocos que arrastam multidões porque não vejo graça naquilo. Como sou uma pessoa que tenta preservar o micro, penso que os blocos de bairros deveriam ser mais prestigiados pela Prefeitura. Mas entendo que é trabalho, é cultura, é dinheiro, enfim.

Que se deleitem aqueles que gostam, que os que não gostam encontrem um canto para sossegar. Já, já passa, e o ano de 2024 pode começar para valer.

Amelia Gonzalez é jornalista, foi editora por nove anos do caderno Razão Social do jornal ‘O Globo’ e colunista do Portal G1, também da Globo. Atualmente mantém o Blog Ser Sustentável, onde escreve sobre desenvolvimento sustentável e colabora na Revista Colaborativa Pluriverso e aqui, na revista Entrenós, uma parceria da Casa Monte Alegre e a Pluriverso.

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