Mudanças climáticas, um tema ainda espinhoso
Caraubas pedro

Dia desses participei de um encontro, também chamado de Oficina, organizado pelo Instituto BVRio  que tinha o nobre objetivo de reunir jornalistas e debater o assunto que sempre nos ocupou, a nós que passamos a exercer a profissão de informar sobre questões do ecodesenvolvimento. Ou, se preferirem, desenvolvimento sustentável. Ou, se preferirem ainda, podemos resumir: meio ambiente.

A foto foi feita por Pedro Leonardo, fotógrafo e dono da Pousada Cabanas Caraúbas, que fica na praia do mesmo nome, no Rio Grande Norte. A cena é de pescadores que lá ainda conseguem viver da pesca, diferentemente do que acontece em lugares como a Baía de Guanabara, como já vimos em texto anterior

O assunto que sempre nos ocupou é: como fazer chegar aos leitores a mensagem que queremos, sem que eles nos julguem ecochatos ou catastrofistas ou utópicos…

Como eu disse na live – o encontro, infelizmente, foi virtual, este legado da pandemia – esta é a pergunta de um milhão de dólares. Se eu soubesse responder, ah se eu soubesse…

Mas penso nisso há tanto tempo, que pude tentar dividir algumas reflexões, que trago aqui. Uma delas eu extraí do livro “As Três Ecologias” (Papirus Editora), escrito por Félix Guattari em 1989. Lá, o pensador francês fala em uma “resingularização individual ou coletiva, ao invés de ir no sentido de uma usinagem de mídia, sinônimo de desolação e desespero”.

 O bom de se ler um texto filosófico é fazer a nossa própria leitura, com base em nossa própria experiência. Assim fiz eu. E me permiti pensar, com base na denúncia feita por Guattari, sobre essa necessidade feérica, cada vez mais feérica, de que todo mundo leia e todo mundo se engaje em causas. Preferir poucos e bons é estar na contramão, eu sei. Mas foi assim que me permiti interpretar a “usinagem de mídia” que Guatarri acusou há quase quatro décadas. Para que tantos seguidores?

Uma outra chance de reflexão eu peço emprestado a Anthony Giddens, que escreveu em 2009 “A política da mudança climática” (Ed. Zahar). Logo no início do livro, ele cria o “paradoxo de Giddens”:

“Visto que os perigos representados pelo aquecimento global não são palpáveis, imediatos ou visíveis no decorrer da vida cotidiana, por mais assustadores que se afigurem, muita gente continua sentada, sem fazer nada de concreto a seu respeito. No entanto, esperar que eles se tornem visíveis e agudos para só então tomarmos medidas sérias será, por definição, tarde demais”, escreve Giddens.

A reflexão de Giddens foi feita há treze anos. De lá para cá, os perigos se tornaram visíveis e agudos, mais do que nunca. E as consequências, não só para a saúde dos humanos, como para o dia a dia da civilização, estão sendo sentidas cada vez mais gravemente. Para perceber isto, é só fazer os links, outro tema que foi recorrente na live.

Fazendo, pois, os links:

Sábado, dia 7 de maio, foi um dia de chuvas intensas no Rio de Janeiro. Como sempre, os noticiários deram conta de um volume de chuvas inédito para aquela época do ano. Este é um gatilho para se pensar que sim, é um evento extremo causado pelas mudanças climáticas. Ocorre que naquele dia, a feira livre que existe aos sábados na minha rua, ficou mirrada. Poucas barracas, já que a maioria dos feirantes mora na Zona Norte do Rio, onde a chuva foi mais intensa.  Qual o link possível? Além de transtornar socialmente a vida dos cidadãos, pagantes de impostos, que ficam submetidos à doença por conta do lixo que se acumula numa rua, a economia local também fica combalida. Os feirantes perderam um dia de seu trabalho, o que num orçamento já irrisório é muita coisa.

Domingo, dia 28 de maio, foi um dia de chuvas intensas no Nordeste do país. Como sempre, os noticiários deram conta de um volume de chuvas inédito para esta época do ano. Este é um gatilho para se pensar que sim, é um evento extremo causado pelas mudanças climáticas (repeti o texto de propósito). As notícias ainda estão chegando, mas já se sabe que mais de oitenta pessoas perderam suas vidas. Isso quer dizer que mais de oitenta famílias estão enlutadas, precisando lidar com a perda de pessoas que, talvez, fossem até mesmo a única que trazia dinheiro para casa. Aliás, que casa?

O argumento trazido por Giddens é que há décadas, quando se começou a informar sobre mudanças climáticas, os estudiosos imprimiram um caráter anódino às informações. Os eventos aconteceriam “no fim do século”, o que fez as pessoas lançarem mão do processo alavancado pelo pensamento, incontestável, de que há coisas mais urgentes que precisam ser resolvidas aqui e agora.

Mas se olharmos o debate com outras lentes, voltando a atenção para o poder público, este sentido de urgência toma uma nova perspectiva. O volume das chuvas é surpreendente, sim, mas não deveria pegar ninguém desprevenido se tivéssemos governantes com um olhar cuidadoso para as questões climáticas. Mais do que os cidadãos comuns, são eles que podem fazer a diferença de caráter secundário para emergencial.

Ruas precisam ser limpas, bueiros têm que estar desentupidos, não se pode permitir construções em lugares de alto risco, árvores, muitas árvores precisam ser plantadas em toda a cidade. É preciso ter campanha para conscientizar pessoas de que lixo não pode ser jogado de qualquer jeito em qualquer canto. São algumas providências que podem dar resultado mais imediato do que mudar hábitos arraigados, como tomar banho quente e demorado, reaproveitar água do ar-condicionado para molhar plantas ou andar sempre com uma sacola para evitar as de plástico.

É, portanto, uma questão de escolha. No caso, em regimes democráticos, a escolha é do melhor candidato. Mudar a agenda é importante. A herança de políticos que debatem assuntos não ligados à mudança climática deve ser repensada. Já estamos no meio da crise climática. E é preciso dar importância a tudo que se pode fazer para ameninar os impactos nas pessoas mais vulneráveis.

Amelia Gonzalez é jornalista, foi editora por nove anos do caderno Razão Social do jornal ‘O Globo’ e colunista do Portal G1, também da Globo. Atualmente mantém o Blog Ser Sustentável, onde escreve sobre desenvolvimento sustentável e colabora na Revista Colaborativa Pluriverso e aqui, na revista Entrenós, uma parceria da Casa Monte Alegre e a Pluriverso.

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