Dia Mundial da Reciclagem: um bom gatilho para reflexão
resíduos no indico

Ontem, 17 de maio, foi o Dia Mundial da Reciclagem. A efeméride foi instituída pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco). A despeito da crítica que se possa fazer com relação à serventia de se criar uma data para celebrar a reciclagem, pode valer como uma chance de suscitar reflexões. É o que nos interessa aqui.

Minha primeira observação é crítica. Como atestam dez entre dez ambientalistas, é preciso sempre lembrar que qualquer objeto reciclado também vira lixo. Ou seja, a reciclagem apenas adia a ida do plástico, por exemplo, para o oceano. Mesmo que ele vá em novo formato, ainda assim ele irá.

Segundo a ONG Ocean Conservancy , cerca de 80% do lixo despejado nas águas resultam de atividades realizadas na terra, tanto produzido pelas indústrias quanto resultado de despejo de esgotos. O restante é proveniente da economia marítima, como a pesca e o transporte. Anualmente, cerca de 13 toneladas de lixo são despejadas no mar.

Portanto, para além da reciclagem, a questão do lixo – tanto nos mares quanto em terra – exige uma atitude realmente mais transformadora por parte dos humanos. É preciso parar de acumular coisas. E isto, para muitos, não é nada fácil.

O historiador Erick Hobsbwan lembra em sua admirável obra “Era dos Extremos”, que de 1947 a 1973 o mundo viveu o que ele chama de Era de ouro. Um espantoso período, lembra Hobsbawn, que “assinalou o fim dos sete ou oito milênios de história humana iniciada com a revolução da agricultura na Idade da Pedra, longa era em que a maioria esmagadora da raça humana vivia plantando alimentos e pastoreando rebanhos”. Na era do ouro, a ordem foi aquecer a combalida economia – por conta da II Guerra – instigando o consumo. Ir às compras era um programa, como ainda hoje é para muitos de nós.

E aqui estamos nós. De novo numa Guerra, que alguns já chamam de Terceira, mas agora sem muita chance de consumir, pelo menos no Brasil, porque está tudo muito caro e a inflação corrói o salário. No entanto, é só decidir organizar aquele armário-cônsul, onde se joga todos os objetos e roupas para “pensar depois” o que fazer com eles, para perceber como nos tornamos acumuladores.

Annie Leonard fez um bruta sucesso em 2010 quando lançou o vídeo “A História das Coisas”, depois transformado em livro editado aqui no Brasil pela Ed. Zahar. Ela é ambientalista, foi ensinada desde cedo a ter carinho pelas coisas que compra e, como norte-americana, vive num país altamente consumista. Mas arregaçou as mangas para contar a história por trás das coisas que nos cercam e que adquirimos, mesmo quando há volatilidade financeira mundial. E mesmo quando somos alertados de que o planeta já está exaurido de seus bens naturais, mais do que pode aguentar.

“O problema básico não é o comportamento individual e as más escolhas de estilo de vida, mas o sistema falho – a máquina fatal do extrair-fazer-descartar… Convido o cidadão que existe em você a falar mais alto do que o consumidor que também existe em você, e a iniciar um diálogo rico e aberto com a sua comunidade”, escreve ela.

No meu caso, estou justamente na fase de me surpreender com a quantidade de lençóis e fronhas que acumulei durante esses anos. Sim, estou tentando organizar o armário-põe-na-cônsul aqui de casa, e começo a refletir, com a ajuda de Annie Leonard.

A ambientalista está longe de ser radical. Em alguns momentos, como sói acontecer, ela enaltece as boas qualidades da reciclagem, embora sempre alerte para a necessidade de se diminuir o consumo (por consequência, a produção) das coisas. A reciclagem de papel, por exemplo, tem levado a uma boa mudança, inclusive no modo de produção. Hoje já se recupera mais papel descartado através do processo de reciclagem do que há dez anos.

“Estamos perto de fechar o ciclo e produzir papel a partir de papel, não de árvores”, conta ela.

Esta é uma boa notícia.

Por outro lado, em outro trecho do livro, a autora cita o vinil, o PVC (cloreto de polivinila), muito perigoso em todos os estágios da vida. Presente em sapatos, bolsas, capas e botas, aventais, toalhas de mesa, cortinas de banheiro, mobília de varandas e mangueiras, recipientes e embalagens de alimentos, escorredores de louça, esquadrias e tubos, além de marcar presença também em sondas usadas pela medicina, artigos de escritório, brinquedos e roupas de crianças, ele pode fazer um tremendo mal ao nosso organismo.

No caso do PVC, o recurso da reciclagem não é solução. “Apenas aumenta o problema, porque reciclar um veneno faz perpetuar o perigo. A única resposta é parar de produzir PVC e tirar o existente da circulação”, escreve Annie Leonard.

O perigo é tão grande que alguns governos já proibiram ou obrigaram a restrição de produtos de plástico em seus territórios. União Europeia, Japão e México estão entre eles.

É uma das soluções, não a única, evidentemente. Não se pode pôr sobre os ombros do cidadão comum – que as corporações gostam de chamar de consumidor – a total responsabilidade de parar de consumir. E aqui estou focando especificamente no plástico, mas é possível pensar dessa forma com outros produtos também.

A ideia é que haja políticas públicas, que as empresas obedeçam a tal regulação e que o cidadão comum seja bem-informado. A reciclagem, então, funcionaria como uma espécie de cereja do bolo, não como o condão mágico que vai nos livrar do mal maior. Lembrando sempre que o mal maior são os eventos extremos que atingem muitos cidadãos, ceifam vidas e desorganizam economias.

Não são tempos fáceis. Mas as efemérides serão sempre bons gatilhos para reflexão.

Amelia Gonzalez é jornalista, foi editora por nove anos do caderno Razão Social do jornal ‘O Globo’ e colunista do Portal G1, também da Globo. Atualmente mantém o Blog Ser Sustentável, onde escreve sobre desenvolvimento sustentável e colabora na Revista Colaborativa Pluriverso e aqui, na revista Entrenós, uma parceria da Casa Monte Alegre e a Pluriverso.

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